quinta-feira, 27 de março de 2014

              "Pude bem cedo conhecer melhor aquela flor, Sempre houvera, no planeta do
pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não
ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manhã na relva, e já à
tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e
o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros. Podia ser uma
nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou então a preparar
uma flor. O principezinho, que assistia à instalação de um enorme botão, bem sentiu que
sairia dali uma aparição miraculosa; mas a flor não acabava mais de preparar-se, de
preparar sua beleza, no seu verde quarto.
Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma suas
pétalas. Não queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua belezaé que ela queria aparecer. Ah ! sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara
dias e dias. E eis que uma bela manhã, justamente à hora do sol nascer, havia-se, afinal,
mostrado. 
E ela, que se preparara com tanto esmero, disse, bocejando:
- Ah ! eu acabo de despertar. . . Desculpa... Estou ainda toda despenteada... 
O Principezinho, então, não pôde conter o seu espanto: 
- Como és bonita! 
- Não é? respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo que o sol...
O Principezinho percebeu logo que a flor não era modesta. Mas era tão comovente!
- Creio que é hora do almoço, acrescentou ela. Tu poderias cuidar de mim ... 
E o Principezinho, embaraçado, fora buscar um regador com água fresca, e servira
à flor. 
Assim, ela o afligira logo com sua mórbida vaidade. Um dia por exemplo, falando
dos seus quatro espinhos, dissera ao pequeno príncipe: 
- É que eles podem vir, os tigres, com suas garras! 
- Não há tigres no meu planeta, objetara o Principezinho. E depois, os tigres não
comem erva. 
Não sou uma erva, respondera a flor suavemente. 
Perdoa-me ... 
Não tenho receio dos tigres, mas tenho horror das correntes de ar. Não terias acaso um pára-vento? 
"Horror das correntes de ar... Não é muito bom para uma planta, notara o
Principezinho. É bem complicada essa flor. . . " 


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